
Por Fernando Dueire*
O debate sobre o fim dos combustíveis fósseis costuma ser habitado por legítimas paixões. No entanto, na vida real de indústrias, serviços, e milhões de consumidores individuais, a economia impõe um pragmatismo incontornável. A transição para uma matriz limpa é urgente, mas exige estabilidade. Nesse cenário de transição responsável, o gás natural deixa de ser um coadjuvante e assume o papel de protagonista e ponte para o amanhã.
Não se trata de abrir mão das fontes renováveis, mas de viabilizá-las. A intermitência da energia solar e eólica necessita de uma base firme, capaz de garantir o funcionamento da produção quando o vento cessa ou a noite cai. O gás natural cumpre essa missão emitindo substancialmente menos poluentes e CO₂ do que o carvão ou o óleo combustível. Ele é o equilíbrio entre o apelo da sustentabilidade e a segurança operacional.
Em Pernambuco, essa engrenagem de mudança tem boa ferramenta, e atende pelo nome de Copergás. Ela tem sido a via indutora de uma transformação silenciosa, mas profunda, que rasga o solo do estado para plantar desenvolvimento. Ao expandir a infraestrutura de distribuição canalizada, a empresa retira das vias públicas a fumaça pesada dos caminhões de óleo e oferece eficiência na porta das indústrias, do comércio, residências e postos de combustíveis.
O mérito local tem sido a interiorização. Levar o gás canalizado para além do Porto de Suape e da Região Metropolitana do Recife, alcançando o Agreste e o Sertão, é um ato de descentralização econômica. Significa dizer ao investidor que o interior pernambucano poderá possuir a mesma segurança energética da capital. Essa é conquista onde já temos os primeiros resultados. O desenvolvimento, antes represado no litoral, ganha as estradas e fixa o trabalhador em sua terra natal com emprego qualificado.
Mas o caminho até a descarbonização total não está livre de gargalos. Segurança regulatória para fontes totalmente limpas, planejamento da matriz, e no caso específico do gás natural, o custo de capital para implantar quilômetros de tubulações subterrâneas é altíssimo e exige segurança jurídica para atrair investimentos de longo prazo. Além disso, a própria geografia do nosso estado desafia a engenharia tradicional, demandando soluções criativas para abastecer polos distantes dos pontos de recepção litorâneos.
A trilha para superar tais desafios passaobrigatoriamente pela inovação. O futuro da própria rede da Copergás está na sua capacidade de se tornar híbrida, abrindo espaço para o biometano gerado a partir de resíduos orgânicos regionais. O gás natural prepara o terreno, a infraestrutura e a cultura industrial. Quando o hidrogênio verde e o biometano estiverem maduros e economicamente viáveis em larga escala, as tubulações já estarão prontas e enterradas no chão, esperando por eles.
Registre-se que setor sucroenergético vive uma reinvenção histórica, consolidando-se como peça-chave nessa engrenagem de descarbonização ao se transformar em biorrefinarias avançadas. O grande salto tecnológico dessa cadeia aponta para os céus com o avanço em direção ao SAF (SustainableAviation Fuel), utilizando a rota Alcohol-to-Jet (AtJ) para produzir um querosene renovável drop-in que posiciona o agronegócio brasileiro, e o Nordeste, como protagonista na energia limpa do amanhã.
A transição energética não se faz com rupturas traumáticas, mas com engenharia, planejamento e passos firmes. O gás natural é a rota mais segura para essa travessia. Pernambuco mostra que compreendeu o recado do tempo: o futuro tem pressa, mas exige a solidez de caminhos bem trilhados para que a sustentabilidade deixe de ser apenas uma parte de nossos sonhos e se torne, finalmente, realidade plena no chão onde pisamos.
*Senador da República por Pernambuco
