Artigo: O histórico da tragédia


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21 de maio de 2020 às 10h07min - Por Américo Rodrigo

Foto: Vladimir Barreto

“Há algum tempo forjaram a frase “O gigante acordou”. Um tipo de histeria coletiva tomou conta do Brasil. A política institucional e tradicional não tinha respostas nem ações efetivas para o que acontecia. Havia legitimidade em muitas das indagações. Nas ruas, vários sentimentos, vertentes e questionamentos se encontravam. Em meio a essa agitação, um pano de fundo midiático tornava todos aqueles atos um grande espetáculo da sociedade, mas sem a necessária consistência política. Grupos que nasciam desses movimentos iniciavam seus ataques aos princípios fundamentais da democracia. O neofascismo tupiniquim dava sinais de que sairia das sombras para protagonizar um dos piores momentos da história do país.

Não estamos falando necessariamente do fascismo que deu a tônica do período que antecedeu a Segunda Grande Guerra, mas do cinismo e do conjunto de características que são comuns para os dois momentos. Na Europa dos anos 30, Joseph Goebbels utilizara o novíssimo cinema como instrumento de comunicação e alienação. Já no Brasil dos últimos anos, grupos radicais de direita ocupam as redes sociais e consolidam a narrativa política que deu sentido à existência do bolsonarismo e de tudo que ele representa. O fascismo cresce nas redes.

Mas o cara que inicialmente foi alçado como símbolo tinha ar de bom moço, andava com Luciano Huck e validou a filiação da atual prefeita de Caruaru ao PSDB. Aécio se comportou como um menino mimado ao não aceitar o resultado das eleições de 2014. Daí por diante, o Brasil mergulha em uma crise política sem precedentes chancelada por Eduardo Cunha e companhia. A hipocrisia se vestiu de verde e amarelo e foi dar show no Congresso na votação do impeachment de Dilma.

Quem não lembra do elogio ao torturador Ustra e do voto ridículo e emblemático de Bruno Araújo, deputado por Pernambuco na época, e aliado de primeira ordem de Raquel Lyra? Alguns dias depois, o golpe jurídico-parlamentar se consolidava. Apesar das críticas que eu possa ter à condução do governo de Dilma, constitucionalmente, nada justificava a retirada do poder de uma mulher inocente e honesta.

O vice assume aos gritos de “Fora Temer”. Construiu a ponte para a “PEC da morte” que congela os investimentos em saúde e educação por vinte anos. Na prática, significa deixar de investir na dignidade da cidadã e do cidadão brasileiro.

Correndo em paralelo, o “herói” da Lava Jato desrespeitava regras constitucionais, legais, processuais, em nome de uma justiça seletiva. Virou ícone nas camisas verde e amarelas que desfilavam na Paulista. Sem graça, sem sal, sem conteúdo político, Moro é um produto midiático e criminoso devidamente comprovado pela “Vaza Jato”. Qualquer magistrado com o mínimo de ética não aceitaria o cargo que Moro aceitou.

Então chegamos ao “Mito”. O cara que sempre foi a personificação do ódio na política. São anos de declarações estapafúrdias sem nenhum apresso pelos valores democráticos. Isso foi amplamente divulgado nas eleições, mas o país, em parte, preferiu acreditar na “mamadeira de piroca” e nas demais fake news disparadas criminosamente pelo WhatsApp. O antipetismo ganhou, mas o país nitidamente perdeu.

O neofascismo tupiniquim chegou ao Planalto. Cheio de bravata, mentira e ignorância. O culto cego ao líder, “O Mito”. O patrimonialismo, a negação à ciência, a perseguição a professores e artistas e a agressão a jornalistas tornaram-se um exercício diário do presidente. Declaradamente, uma vergonha internacional.

Damares vê Jesus na goiabeira e agita as pautas de costumes. Sem nenhuma fundamentação científica, espalha cortina de fumaça, enquanto Guedes coloca em prática o seu projeto privatista. No momento em que mais precisamos da ciência, o ministro astronauta tomou chá de sumiço e valida um governo cheio de terraplanistas. As questões ambientais ardem e viram cinzas nos rincões da Amazônia, enquanto a educação é conduzida por um homem que detesta Paulo Freire.

O fato é que Bolsonaro e sua turma não têm um projeto desenvolvimentista para o país. O que há é um sentimento de adoração aos EUA e de negação ao que somos enquanto nação. Bolsonaro não conhece o Brasil. Em grande parte, o seu discurso político é baseado no ódio empresarial ao Estado. A questão de classe nunca fez parte da sua compreensão sobre a política e a sociedade. E esse debate não tem uma relação direta com ser marxista, mas com a realidade que é latente nas ruas do país. Não dá para ser presidente do Brasil sem ter o combate as diferenças sociais como uma questão central.

Chegamos a 2020 com um dos maiores desafios que o mundo contemporâneo já viu. A Covid-19 já silenciou mais de 18 mil brasileiros. O Brasil passou a ser governado por uma espécie de “tio do pavê”. Fala gritando, é machista, grosseiro e cheio de piadas sem graça. Diante da morte de centenas de brasileiros sua maior expressão foi: “E daí?”. Um troglodita. A representação engravatada da barbárie.

As esquerdas estão desarticuladas do ponto de vista do conteúdo e do domínio da comunicação nas redes. As revoluções sociais e econômicas promovidas pelos governos do PT aos poucos vão deixando de existir na vida das pessoas. É o desmonte das políticas fomentadoras de dignidade.

O presidente segue alimentado o que o mantém esse Governo: caos, violência e ódio. Tudo muito bem amarrado nas redes e com uma base que não se dissolve. Se queremos mudar o horizonte brasileiro, precisamos aprender a nos comunicar para além das bolhas. Perceber a rede como um espaço permanente de construção de opinião. Ocupar e ressignificar a política com criatividade e interação. Penso que esses são desafios para abraçar com a certeza que precisamos mudar.”

Daniel Finizola
Professor, artista e vereador pelo PT em Caruaru


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