Os portugueses já pediram desculpas?


Artigos
22 de novembro de 2021 às 08h00min - Por Américo Rodrigo

Foto: Brizza Cavalcante

Por Maurício Rands*

Em 20 de novembro de 1695 Zumbi era assassinado pelo capitão paulista André Furtado de Mendonça. Sua cabeça foi pendurada num poste no Pátio do Carmo no Recife. Marcando o fim da maior experiência de resistência do povo brasileiro, o Quilombo dos Palmares, que chegou a ter uma população de 11 mil pessoas. E que durou quase um século.

Marcando o dia da consciência negra, vale algum exercício empático que pode ajudar a entender a formação do povo brasileiro. Reflitamos sobre o que significou para milhões de africanos o processo de escravização a que foram submetidos. Imaginemo-nos na pele de quem estava, lá pelos Séculos XVI a XIX, vivendo em liberdade. Cultivando a terra com suas famílias no interior de impérios, reinados ou aldeias em Songai, Congo, Angola, Benim ou Moçambique. De repente a sua comunidade é invadida por portugueses e aliados africanos. Capturados e submetidos a meses de caminhada, amarrados uns ou aos outros nos libambos, em direção a portos como o de Ajudá, no Benim, São Jorge da Mina, em Gana, Ilha de Goreia, no Senegal, ou Luanda, as chamadas “portas de não retorno”. Depois, a espera dos navios negreiros que os conduziriam ao continente americano em porões imundos e infectados. Os que sobreviviam às doenças físicas e às da alma eram despejados nos armazéns do leilão, fétidos, escuros e apertados. Leiloados, eram marcados a ferro quente na pele e conduzidos ao duro labor nos engenhos, cafezais e minas. Para viverem em cubículos, as senzalas. Quase sempre separados maridos e esposas, pais e filhos, familiares e amigos. Em seus dois recentes livros, Laurentino Gomes (A Escravidão, volumes I e II) detalha cada etapa desse percurso de horror. Em 350 anos, 24 milhões de seres humanos foram arrancados de suas comunidades. Metade morreu antes mesmo de embarcar. Dos 12,5 milhões despachados nos navios, 10,7 milhões chegaram ao novo continente. Dos quais, somente 9 milhões sobreviveram aos três primeiros anos de cativeiro. Através dos portos do Rio, Salvador, Recife e outros chegaram ao Brasil 4,9 milhões de africanos. Ou 40% do total dos escravizados que foram enviados às Américas.

O legado da escravidão ainda hoje é determinante do nosso atraso civilizatório. Somos o país com a segunda maior população negra do planeta. Atrás apenas da Nigéria. Negros e pardos são 54% da população. Mas 78% na parcela dos 10% mais pobres.

Os espaços de poder são dominados por pessoas brancas. Isso precisa ser revertido. Que se coloque a diversidade como meta em todos esses espaços. A partir do aprofundamento da boa tendência inaugurada pela Lei 12.711/2012, esse programa de ação afirmativa que introduziu as cotas sociais e raciais nas universidades públicas para egressos das escolas públicas. Que avancemos para ter equidade racial na docência (apenas 3% das nossas universidades têm número de professores negros que espelha a distribuição racial da região). Que se alarguem as oportunidades educacionais dos afrodescendentes com a garantia de escolas públicas de qualidade no ensino básico. Que avancemos no chamado afrofuturismo, esse movimento estético, social e cultural que visa inserir a negritude na tecnologia e no futuro. Que se acelere a inclusão digital dos afrodescendentes, superando-se o impacto do racismo nas tecnologias cujos algoritmos elaborados por profissionais em maioria brancos reproduzem vieses raciais. Que se eliminem os preconceitos contra a religiosidade afro. Que o racismo seja banido dos estádios de futebol (em 2021 foram 51 os casos de injúria racial registrados pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol). Que as polícias deixem de matar os jovens negros das periferias (entre quem tem de 15 a 29 anos, a proporção de mortes por armas de fogo é três vezes maior entre negros). E que superemos questões simbólicas, como exemplifica a resistência da nossa Marinha a que o marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata, tenha seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Tudo isso poderia superar o racismo, essa consequência odiosa da escravidão.

Os africanos moldaram o caráter da nação brasileira com sua resiliência, criatividade, hospitalidade, alegria, espontaneidade, variedade musical, dança, culinária e crenças religiosas.  Devemos muito aos escravizados que aqui construíram a nação brasileira com a força da sua diversidade e ancestralidade africana. Não devem menos os portugueses que extraíram tanta riqueza com o trabalho, o sangue, o sofrimento e a vida de milhões de pessoas escravizadas que aqui tiveram de reconstruir suas identidades depois de separados de suas comunidades, terras e tradições culturais. Depois de sofrerem um brutal processo de desenraizamento ou morte social.

*Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford