Canibalismo tucano


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24 de novembro de 2021 às 08h00min - Por Américo Rodrigo

Deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) bate panela na tribuna durante sessão ordinária para votação de propostas (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Fabio Rodrigues Pozzebom

Por Daniel Finizola*

O processo de redemocratização do Brasil foi marcado pelo protagonismo do PT e do PSDB. Personagens centrais desses partidos sofreram com o autoritarismo e com a violência latente que marcaram a ditadura civil-militar no Brasil. 

O PSDB foi um dos principais articuladores do Plano Real. Em seus governos, tivemos o início das políticas de assistência social em contraponto às políticas neoliberais. Já o PT coloca o Brasil em outro patamar no âmbito internacional. Baseando-se em um modelo desenvolvimentista, amplia e sistematiza as políticas de assistência, e tira o Brasil do mapa da fome, gerando desenvolvimento, emprego e renda.  

Seis pleitos eleitorais evidenciaram a disputa PT X PSDB, mas em 2014, o PSDB capitaneado por Aécio Neves, deixou de lado sua tradição democrática. Resolveu questionar o resultado das urnas e procurou impedir de forma arbitrária a governabilidade no país. Coisa de menino mimado que não soube perder a eleição. Daí por diante, o PSDB seguiu ladeira abaixo. A cena de Bruno Araújo, na época deputado por Pernambuco, hoje presidente nacional do PSDB, votando pelo golpe contra a presidenta Dilma, é no mínimo bizarra. As consequências vieram. Com pouco mais de 4% dos votos em 2018, o PSDB com Geraldo Alckmin obteve o pior desempenho em eleições presidenciais de sua história.  

Diante de tamanha derrota, o PSDB fez alguma autocrítica? Me parece que não. Passou a flertar com o autoritarismo da extrema direita bolsonarista. Quem não lembra do “Bolsodoria”? A bancada do partido no Congresso segue votando majoritariamente nas pautas do governo. Ou seja, o partido que antes representava a direita brasileira, agora não passa de um mero coadjuvante nos projetos da extrema direita. 

Com grande cobertura da mídia, o ninho tucano vive sua prévia marcada por uma estrutura mambembe. É inacreditável que não se consiga resolver o problema de um aplicativo de votação de forma célere. Além disso, seguem as acusações de compra de votos, ampliando o racha entre os tucanos. Doria trabalha para chamar o PSDB de seu e se viabilizar como candidato à presidência. Eduardo Leite posa de bom moço “moderno” e “arrojado”, mas sem expressão nacional. Já Arthur Virgílio, em coletiva à imprensa, jogou a real: Aécio é maçã podre no PSDB.       

Em Caruaru, a prefeita Raquel Lyra, principal liderança tucana no estado, segue com seu estilo avesso a qualquer polêmica. Não coloca sua posição sobre os grandes temas do país, tampouco sobre a situação que seu partido vive no momento. Declarou seu voto em Eduardo Leite e ponto! 

Entre os vereadores tucanos caruaruenses, o único que conseguiu votar foi Ricardo Liberato, seguindo a orientação da prefeita. Leonardo Chaves nem se cadastrou, demonstrando que suas filiações partidárias, normalmente, servem apenas como meio eleitoral. Por outro lado, a tucana Perpétua Dantas, desafeto da prefeita, declarou seu voto em Doria. Algo extremamente contraditório, visto o que Doria representa na política frente ao que a vereadora diz defender.          

No mundo animal, o tucano tem a fama de atacar o ninho de outros pássaros, mas na política, o ninho tucano vive um canibalismo. O que vai sobrar? Qual será o tamanho do partido após as prévias? Enquanto eles se bicam, fica evidente que o PSDB das origens está cada vez mais distante do partido de hoje, correndo o risco de sair ainda menor da disputa presidencial.

*Daniel Finizola
Professor, artista e ex-vereador de Caruaru