Opinião

Opinião | Camarão que dorme, a onda leva

Redação
Foto: Divulgação

Por Vanuccio Pimentel*

Em julho de 2025, aqui no Blog Cenário, escrevi um artigo no qual argumentei que a região Agreste do estado seria a mais difícil para João Campos (PSB). No mesmo artigo argumentei ainda que a aposta na Região Metropolitana como única fortaleza capaz de impedir uma vitória de Raquel Lyra (PSD) não era condizente com a complexidade de uma eleição estadual.

Em dezembro de 2025, o levantamento da Atlas Intel (Ranking dos Governadores) apresentou a governadora Raquel Lyra (PSD) como uma das mais mal avaliadas do país. A governadora se saiu mal em todos os itens pesquisados e era uma sinalização muito negativa para o momento.

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É preciso considerar que uma avaliação negativa ainda tão distante do processo eleitoral dificilmente seria uma avaliação consolidada. Um governo que não produziu nenhuma hecatombe administrativa e nenhum escândalo grave, pode reverter esse sentimento ao longo do tempo. Essa era a tarefa da governadora. A tarefa de João Campos (PSB), por sua vez, deveria ajudar a consolidar essa avaliação negativa.

Ao longo do primeiro semestre deste ano, vimos a governadora acelerar entregas e aumentar os anúncios, em uma estratégia de ocupar o espaço político naturalmente atribuído a quem ocupa o cargo de governador. Nas redes sociais, surgiu um amplo ecossistema de páginas, blogs, boots e influenciadores trabalhando – com uso intensivo de inteligência artificial – em uma forte campanha negativa contra João Campos e o PSB.

Do outro lado da disputa, a pré-campanha do PSB continuava jogando parado, acreditando que a vantagem não ia se desfazer tão cedo, que a Região Metropolitana era o anteparo contra qualquer crescimento da governadora.

Neste período, João Campos casou-se com Tábata Amaral, viajou em lua de mel e passou vários dias sem agenda política. Enquanto isso, perdia narrativa nas redes sociais, não fez nenhum contraponto aos movimentos da governadora e nas várias visitas que fez aos municípios do interior do estado, pouca crítica organizada fez ao governo estadual.

Em outras palavras, ele não construiu discurso político para além da herança familiar. Perdeu inúmeras oportunidades de contrapor o governo, de apontar as falhas, de trazer os números e fazer comparações. Quem disputa contra a máquina não pode prescindir disso.

O resultado da pesquisa Datafolha (28/05) que coloca a governadora numericamente à frente, parece ter provocado um choque. Mas diante da observação retrospectiva, faz bastante sentido o crescimento de Raquel Lyra sem contraponto direto. A lição que fica foi deixada pelo grande sambista Arlindo Cruz e imortalizada por Zeca Pagodinho: “Camarão que dorme, a onda leva. Hoje é dia da caça, amanhã do caçador”.

*Doutor em Ciência Política (UFPE) e professor adjunto II – Asces-Unita