
Por Fernando Dueire*
O crescimento das grandes cidades brasileiras no século XX impôs um desafio complexo aos gestores públicos: como administrar territórios onde as fronteiras físicas entre os municípios desapareceram? O fenômeno da conurbação exigiu uma nova engenharia institucional. Em Pernambuco, a consolidação da Região Metropolitana do Recife (RMR) reflete essa trajetória, oscilando historicamente entre o rigor do planejamento técnico e as inevitáveis pressões do xadrez político contemporâneo.
A institucionalização dessas áreas ganhou força na virada dos anos 1970, impulsionada por estudos pioneiros de geografia urbana, como os de Laudo Bernardes, que delimitaram os fluxos de polarização das metrópoles brasileiras. Em Pernambuco, esse esforço técnico culminou na criação da RMR, reconhecendo que problemas de moradia, transporte e saneamento de cidades vizinhas estavam umbilicalmente ligados ao destino da capital.
A justificativa para a existência da região metropolitana repousa sobre o conceito de função pública de interesse comum. O cotidiano do cidadão ignora as divisas administrativas: trabalha-se em uma cidade, reside-se em outra e busca-se lazer numa terceira. O planejamento integrado nasceu como uma promessa de eficiência para coordenar investimentos macroestruturais, evitando o desperdício de recursos e garantindo que as soluções para os gargalos urbanos fossem desenhadas de forma sistêmica.
Passadas cinco décadas de sua criação, a RMR enfrenta o teste do tempo sob novas e complexas dinâmicas. O federalismo inaugurado pela Constituição de 1988 garantiu forte autonomia aos municípios. Se por um lado isso fortaleceu a democracia local, por outro gerou novos entraves para a governança compartilhada, já que prefeitos frequentemente priorizam agendas locais em detrimento de projetos metropolitanos de longo prazo.
Nos tempos de hoje, os fóruns de integração regional em Pernambuco assumem, de forma indissociável, fortes ares políticos. As decisões sobre o desenho da mobilidade urbana ou a concessão de serviços de saneamento básico transbordam em disputas partidárias entre prefeituras e o governo estadual. O crescimento urbano desordenado acentua as desigualdades socioespaciais. Enquanto os eixos centrais e litorâneos concentram investimentos imobiliários, as periferias e as cidades do colar metropolitano sofrem com a precariedade habitacional, a falta de saneamento e um sistema de transporte público intermunicipal sabidamente ineficiente e saturado.
A articulação metropolitana em Pernambuco precisa avançar para além dos arranjos políticos provisórios e das burocracias formais. O grande desafio da atualidade é converter os fóruns de debate em arenas de cooperação real, onde o desenvolvimento sustentável e a justiça social fiquem acima das conveniências eleitorais. Afinal, a metrópole só funcionará plenamente quando for planejada para as pessoas, e não para as fronteiras que a dividem.
*Senador da República por Pernambuco
