
Por Charles Andrade*
A eleição presidencial de 2026 entra para a história com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para seu quarto mandato. Com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, o resultado mostra que, mesmo diante de um país profundamente dividido, a mobilização política e a capacidade de diálogo com diferentes setores da sociedade continuam fazendo a diferença.
O primeiro turno acendeu um alerta entre os apoiadores de Lula. A resposta veio nas ruas, nas redes sociais e na retomada da militância, que compreendeu a dimensão da disputa e voltou a ocupar espaços. A vitória não foi construída apenas pelo eleitorado tradicional do PT, mas também por brasileiros que, mesmo sem identificação com o partido, enxergaram na candidatura adversária motivos suficientes para escolher outro caminho.
O Nordeste, mais uma vez, teve papel decisivo. A expressiva votação de Lula na região reafirma a importância de um eleitorado que não pode ser reduzido a estereótipos. Questões como renda, emprego, educação e acesso à saúde seguem presentes na decisão de milhões de nordestinos, que demonstraram, novamente, sua capacidade de influenciar os rumos nacionais.
Outro aspecto merece atenção: a tentativa de transformar a religiosidade em instrumento central da disputa não foi suficiente para garantir a vitória de Flávio Bolsonaro. A proximidade com lideranças religiosas, sobretudo de setores evangélicos, não eliminou a autonomia dos fiéis na hora de votar. Fé e política podem dialogar, mas nenhuma liderança tem o monopólio das convicções religiosas ou da decisão eleitoral.
O resultado também pode ser compreendido como uma reação de parte da sociedade aos conflitos, às controvérsias e às atitudes da família Bolsonaro. Isso não significa que todos os votos em Lula representem adesão ao PT. Em uma eleição tão apertada, a rejeição a um projeto político pode ser tão determinante quanto a identificação com o outro.
A redução da abstenção, de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo, também merece destaque. A participação de mais eleitores ampliou o peso da decisão popular. Nesse contexto, a presença dos idosos, inclusive daqueles para quem o voto é facultativo, reforça a importância de reconhecer que o interesse pela política não desaparece com a idade. A democracia depende justamente dessa disposição de participar, especialmente quando o resultado pode ser definido por poucos milhões de votos.
A vitória de Lula, contudo, não encerra os desafios nem autoriza comemorações que ignorem a dimensão da oposição. Quase metade dos votos válidos foi destinada ao adversário. O dado exige responsabilidade, capacidade de diálogo e atenção às demandas de uma sociedade que continua dividida.
Independentemente do partido que governa, o Brasil precisa avançar. Crescimento econômico, emprego e renda, educação de qualidade, saúde pública fortalecida e políticas de proteção social devem estar acima das disputas eleitorais. O novo mandato será avaliado menos pelo discurso das campanhas e mais pelos resultados que produzir na vida da população.
No fim, fica a esperança de que o país consiga superar a lógica permanente do confronto e reencontrar caminhos de desenvolvimento, justiça social e respeito à democracia. Porque a melhor resposta das urnas não será apenas a escolha de um presidente, mas a possibilidade de construir um Brasil melhor para todos, inclusive para aqueles que fizeram uma escolha diferente.
*Jornalista formado pela Uninassau (2011). Iniciou sua trajetória no jornalismo em 2009, no rádio pernambucano, passando por emissoras como Rádio Capibaribe, Criatividade FM e Rádio Olinda. Como assessor de imprensa, passou por várias entidades representativas do Estado como Alepe, Câmara do Recife, Prefeitura do Jaboatão, entre outros.

