Artigo: A imobilidade urbana


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7 de fevereiro de 2020 às 10h27min - Por Américo Rodrigo

Foto: Luis Macedo

“As grandes cidades brasileiras, e mesmo aquelas de médio porte, voltaram a vivenciar no mês de fevereiro uma realidade ainda mais difícil no trânsito após o retorno às aulas. O aumento no número de carros nas vias urbanas, com o início das atividades escolares é um acontecimento previsível, com data certa para começar, todos os anos. Mas a previsibilidade não nos livra do caos.

A pergunta que devemos fazer é: os órgãos de controle do trânsito vêm se preparando adequadamente para organizar e minimizar o impacto dessa entrada em massa de veículos no nosso cotidiano? As gestões nas cidades têm feito a sua lição de casa?

Na minha cidade, Recife (PE), a resposta para esta pergunta, infelizmente, é não. No começo de fevereiro manchetes de jornais, matérias na TV e flashs ao vivo nas rádios noticiavam o que parecia ser uma calamidade pública, a volta de 250 mil carros particulares às ruas. Algo comparável aos alagamentos que também afligem a capital pernambucana. Isto quando os dois fenômenos não se conjugam: trânsito e chuva.

O início das aulas marcou o encontro do Recife com a sua realidade cotidiana, a de uma cidade travada. Com uma população de mais 1,6 milhões de habitantes, Recife tem o trânsito mais congestionado do Brasil e o 3° pior da América do Sul, de acordo com o levantamento realizado pela empresa TomTom Traffic. Na América do Sul, apenas Bogotá, na Colômbia, e Lima, no Peru, apresentam níveis piores de engarrafamento. Hoje, a cidade tem 712,5 mil veículos registrados, dentre automóveis, veículos de carga (caminhão e caminhonete), ônibus e motocicletas.

O transporte público – ônibus, trem e metrô -, que poderia contribuir para tirar os carros particulares da rua, também parou no tempo, maltratando o passageiro com um sistema precário, desconfortável e caro. Pesquisa realizada no final de 2019 pelo Moovit, um aplicativo que indica horários de circulação do transporte público, mostra que os usuários de ônibus e metrô de Recife são os que perdem mais tempo, num comparativo entre 10 regiões metropolitanas do País,

Os recifenses esperam, em média, cerca de 25 minutos até conseguirem embarcar para ir de casa para o trabalho ou para a escola, o que coloca a cidade na sétima posição no ranking mundial de tempo perdido em deslocamentos no transporte público.

No Brasil, o tempo desperdiçado nos trajetos casa-trabalho-casa rendem um prejuízo de mais de R$ 111 bilhões à economia, aponta um estudo elaborado pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). O valor é referente ao que deixou de ser produzido na economia em razão do tempo perdido – 114 minutos em média – por mais de 17 milhões de trabalhadores. Este número, por si só, revela o equívoco do estímulo que ainda se dá à aquisição do carro próprio em detrimento de mais investimentos no transporte público.

A receita para um trânsito saudável e civilizado está dada há pelo menos duas décadas: educação e conscientização, transporte público decente e mais investimentos na infraestrutura de ciclovias, ciclofaixas e outros modais alternativos, a exemplo do tráfego por rios. E aqui cito novamente o caso do Recife, que há anos sonhou com a possibilidade de ter seus cidadãos se locomovendo pelo Rio Capibaribe com a implantação de um projeto de navegabilidade que já custou R$ 77,59 milhões aos cofres públicos (entre recursos da União e do Estado), mas que está parado e com ares de completo abandono.

A péssima qualidade do trânsito no Brasil é um problema de falta de gestão, de ausência de visão e, no final, de aprofundamento de desigualdades. Sem transporte público eficiente as pessoas não vão, não chegam.

O estudo sobre Desigualdades Socioespaciais de Acesso a Oportunidades nas Cidades Brasileiras – 2019, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) escancara esta questão. Os resultados obtidos pelo Ipea e ITD apontam que a periferia é quem paga a conta. É nela onde estão os excluídos das oportunidades porque, em geral, o transporte público e as ciclofaixas não chegam. E, por consequência, as oportunidades de emprego, saúde e lazer também não são oferecidas de forma igualitária, num ciclo perverso e viciado.

Não podemos esquecer que o transporte é um direito e, também, um meio do cidadão acessar outros direitos. Nosso crescimento pessoal e profissional e nossa qualidade de vida também ficam comprometidos com uma realidade cotidiana de ruas travadas. O trânsito também pode congestionar as nossas vidas.”

Marília Arraes – Deputada Federal


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