Artigo: o simbolismo do caos


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30 de março de 2021 às 17h00min - Por Américo Rodrigo

Foto: Isac Nóbrega

“O Brasil está às vésperas de uma triste coincidência histórica: o pedido de demissão conjunto dos comandantes das Forças Armadas, algo inédito no país, ocorre um dia antes do aniversário de 57 anos do golpe militar de 1964. E precisamos, sim, nos preocupar com mais essa tempestade que se avizinha.

Embora os militares tenham se apressado em afastar qualquer hipótese de “ruptura institucional”, o recado está claro: o descontentamento com Bolsonaro vem das tentativas de instrumentalizar Exército, Marinha e Aeronáutica em prol dos planos do presidente. O principal deles, a reeleição custe o que custar, nem que para isso o preço a se pagar seja rifando o regime democrático.

O Brasil está vivendo nas trevas, um golpe seria a punhalada final. Um cenário sombrio que é fruto de uma crise política prolongada, uma economia fragilizada e uma crise sanitária sem precedentes. Estamos assistindo – e não é de camarote – o empobrecimento crescente da população.

Até o símbolo da estabilidade e da pujança econômica brasileiras, o real, padece. É atualmente a quarta moeda do mundo mais desvalorizada perante o dólar, atrás apenas do Sudão, da Líbia e, veja só que ironia, da “achincalhada” Venezuela.

Enquanto acompanhamos pelas redes sociais e pela imprensa os planos de vacinação avançarem em outros países, o Brasil se torna “pária internacional”. Chegamos ao recorde de 300 mil mortos por Covid e ganhamos as manchetes mundiais. O Brasil e suas novas variantes preocupam as nações que planejaram findar com o estado de calamidade pública e virar a página da maior crise sanitária do século.

A nós, cada dia mais isolados, resta a incerteza. A fome, aquela velha e indesejada conhecida, nos revisita, agora simbolizada por placas de papelão improvisadas, empunhadas por vulneráveis que se aglomeram em cada semáforo.

Enquanto isso, o brasileiro médio continua escondendo sua apatia e incertezas sob máscaras. Respondemos que “está tudo bem” quando nos perguntam, mas não sabemos até quando teremos saúde. Se teremos emprego amanhã; se haverá um ambiente seguro para levar nossos filhos enquanto trabalhamos; ou até quando teremos renda para manter nossas despesas, sejam básicas ou para bancar “luxos” desfrutados em outros tempos, mais alvissareiros.

Sabemos que a queda do ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, já era esperada. Foi rifado por conta da pressão do Congresso e em nome do projeto político de 2022. Só que ninguém contava com o fator surpresa que foi a saída do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa, anunciada em meio a uma mini-reforma ministerial que culminou na troca de seis representantes do alto escalão bolsonarista

O alerta está ligado e é evidente a pressão pelo alinhamento das Forças Armadas ao governo. Será que os próximos a ocuparem os postos manterão a coerência com a categoria, como trataram de nos garantir, pela imprensa, os que estão de saída?

O descontentamento não atinge só a classe média ou os militares. É crescente o incômodo com Bolsonaro na elite que tem poder decisório no país. É representativo principalmente após o racha com João Dória, um dos pré-candidatos a subir a rampa do Planalto.

A onda dos insatisfeitos já atinge banqueiros, como Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles, ex-presidente e atual presidente do Conselho de Administração do Itaú Unibanco, respectivamente. Sem falar dos empresários que têm se unido pela importação de vacinas, como Luiza Helena Trajano. Reagem por conta da ausência de Estado.

Amanhã, 31 de março, o Brasil acordará mais uma vez dentro de uma panela de pressão prestes a explodir. Só que, desta vez, revisitamos memórias que deveriam ficar para sempre esquecidas”.

Bruna Siqueira Campos
Jornalista