20 anos atrás, em um 11 de setembro…


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11 de setembro de 2021 às 13h00min - Por Américo Rodrigo

Foto: Reprodução

Por Gustavo Rocha*

Exatamente 20 anos atrás, acontecia o inimaginável. Dois aviões de passageiros (Boeings 767, os maiores em operação comercial na época), haviam sido sequestrados, e atingiam as duas torres do World Trade Center no coração de Manhatam, Nova York, Estados Unidos da América. O primeiro avião colidiu com as torres às 8:45 da manhã, no horário local. Às 9:03, 18 minutos após o primeiro impacto, um segundo avião colidia com a outra torre do complexo. Após 53 minutos de incêndio nos prédios, eles colapsaram. As duas torres gigantescas eram juntas um dos maiores símbolos dos EUA, do capitalismo, do modo de vida ocidental e estado-unidense. Um alvo escolhido a dedo para ter o máximo de impacto psicológico no mundo.

É um evento que, mesmo tendo passados 20 anos, praticamente todo mundo que já era nascido, e não era uma criança pequena, lembra do que fazia quando viu as imagens. Este que vos fala, era um jovem estudante da oitava série do fundamental, chegando em casa para o almoço, e ficou congelado em frente à televisão. Alguns minutos depois de começar a assistir à televisão, as duas torres caíram. A cena foi indescritivelmente chocante. Alguns minutos depois, ficamos sabendo de um terceiro avião, caído próximo ao centro do comando militar dos EUA, o prédio do Pentágono. Era um bombardeio na imagem que o mundo tinha de que o maior país do mundo na época era invulnerável. O mesmo impacto aconteceria na autoimagem dos cidadãos do país, que passariam a ter uma preocupação evidente com segurança, especialmente nas eleições presidenciais.

Pouco tempo depois, em todos os noticiários da televisão, uma organização terrorista até então desconhecida do grande público, a Al Qaeda (algo como “A Base” em árabe, mais tarde descobriríamos que a organização tinha sua sede de operações na região montanhosa do Afeganistão), assumia a autoria dos atentados. Seus militantes suicidas haviam conseguido um feito de Davi contra Golias da contemporaneidade. Surgia a figura de Osama Bin Laden como líder de um grupo fundamentalista islâmico terrorista.

Este 11 de setembro de 2001 mudaria o mundo para sempre. A forma como as Relações Internacionais seriam, a política externa e de segurança de muitos países, especialmente os Estados Unidos da América, e seria o estopim para o início de duas guerras contra o terror lideradas pela Casa Branca.

Do ponto de vista de segurança, o mundo inteiro teve que se adaptar a novas regras de segurança em aeroportos internacionais e nacionais, em praticamente todos os voos. Os consulados dos EUA passaram a ter um nível de exigência altíssimo para concessão de vistos. Outros países também ergueram suas burocracias e regras de segurança para evitar outros atentados.

Além disso, a Política Externa Americana iniciava a Guerra ao Terror. Em outras palavras, o governo dos EUA iria agora adotar uma forma de se relacionar com o mundo que seria extremamente dura com qualquer país visto como terrorista ou que fosse conivente com o terrorismo. O então presidente, George W. Bush chegou a elencar em discurso no parlamento estado-unidense uma lista de países do “eixo do mal”.

Aproximadamente um mês depois do atentado de 11 de setembro de 2001, em outubro, os EUA invadiam com apoio de uma coalizão de países, o Afeganistão. Uma guerra que se tornaria a mais duradoura guerra da história dos EUA, que durou 20 anos, terminando nos eventos de retirada que acompanhamos no mês passado. Levaram mais 10 anos para encontrarem o Osama Bin Laden, mas apenas alguns dias para ocupar o país, exilando o governo do país a rincões de um país desértico e montanhoso, ou em países vizinhos.

Pouco tempo depois, em 20 de março de 2003, os EUA iniciariam uma segunda guerra: A Segunda Guerra do Golfo, ou Guerra do Iraque, ou ainda Invasão do Iraque. Desta vez, com o objetivo de remover o governo do ditador Sadam Husseim, com a desculpa de que ele financiaria grupos terroristas e de que teria posse de armas de destruição em massa, especialmente armas químicas e biológicas. Novamente, a invasão em si foi rápida e eficiente.

Nos dois casos, as forças armadas da coalizão pelos EUA enfrentavam uma ocupação rápida e relativamente fácil. Mas passada a invasão, se descobriam em um enorme vespeiro, difícil de administrar e muito mais difícil de enxergar uma saída. Levaram 20 anos para um presidente dos EUA resolver concretizar a saída do Afeganistão. E já são 18 anos no Iraque, em uma situação não muito diferente. Neste segundo caso, o receio é deixar o campo aberto para o aumento da influência do Irã sob o governo iraquiano, ou pior, permitir o avanço e reconstrução do Estado Islâmico (ISIS, na sigla em inglês).

Não sabíamos na época, que em ambos os casos havia influência dos próprios EUA na ascensão do regime Talibã no Afeganistão (como falei em texto sobre a retirada das tropas do território afegão) e na ascensão do ditador iraquiano Sadam Hussein. Que ambos tinham um papel durante a geopolítica da Guerra Fria, e agora, haviam voltado para assombrar a vida contemporânea dos EUA.

O atual presidente do país, Joe Biden, ao retirar as tropas do Afeganistão disse uma frase muito significativa. “Não fomos ao Afeganistão para formar uma nação”. Efetivamente, era uma guerra contra o terrorismo. Um tipo de inimigo que não se vê, não se identifica, e não se sabe ainda como combater ao certo. Porém, nos dois casos mencionados, se viram na necessidade de reconstruir países, em função das invasões realizadas. E enfrentam diferentes dilemas, para manter conquistas geopolíticas. Essa postura do atual presidente indica que, em algum momento, os EUA deverão também dar conta de uma retirada do Iraque. Mas isso, são cenas para os próximos capítulos.

*Gustavo Rocha
Internacionalista, doutor em Ciência Política, professor do curso de Relações Internacionais da Asces-Unita